21 de junho de 2016

Das lembranças

Na madrugada gelada ela fecha os olhos para tentar dormir enquanto pensa que já passou um ano da última vez que o viu. Naquela tarde quente numa segunda-feira na rodoviária.

Parece que estava sentindo que não o veria mais, porque o beijava em cada pedacinho do seu rosto para guardá-lo perfeito na memória. Encostava a cabeça em seu peito e sentia seu cheiro. Cheirava sua barba até perder o ar. No fundo ela sabia. Só não queria acreditar como se desacreditando pudesse afastar essa realidade.

Lembrou que ao entrar no ônibus sentiu que era a última vez que passava aquele perrengue da viagem e até ficou aliviada. Em seguida espantou o alívio dizendo: “mas não vir mais é não vê-lo mais”.

Ela não queria mais o transtorno da viagem e nem voltar àquela cidade, mas o queria.

Ele fazia tudo valer à pena.

7 de junho de 2016

Florianópolis

Hoje fez 13º em Florianópolis. Frio. Muito frio. Mas havia sol. Eu não estava lá, mas o aplicativo do celular me mostrou que lá estava frio e com sol.

Realmente não gostava da cidade quando era moradora. Tenho muitas mágoas daquele tempo. Mágoas do lugar, de alguns moradores e da casa em que vivi. Mas hoje, com a distância do tempo e com a reflexão que o acompanha, eu gosto de lá. Até penso na possibilidade de voltar. Que não é um “apenas voltar”, inclui outros propósitos, muito maiores que somente o deslocamento.

Gosto das pessoas que conheci muitos anos após ter ido embora do sul. Precisei sair para fazer amizade com pessoas legais, acolhedoras e simples. Eu, como sempre, tomando distância para entender melhor o funcionamento da vida. É que preciso que tudo esteja mais calmo. Sem a euforia do novo, o tédio do mesmo ou o desconforto com o já gasto.

Voltei ano passado para uma visita relâmpago. Deu para ver a cidade pela janela do carro, que me pareceu um pouco mais bagunçada, mas nada caótica. Ao menos não em um sábado à tarde e em um domingo. Sou justa.

Deu saudade. Saudade de viver coisas novas em uma cidade que pouco explorei. Por birra? Também. Mas havia certa impossibilidade que não quero relatar aqui. Faz parte do processo de esquecimento das lembranças ruins.

Sei que deu saudade. Fecho os olhos e sinto novamente aquele céu azul, quase sem nuvens, o sol quentinho beijando minhas bochechas e o vento frio de cortar os poros. Sorrio.