26 de dezembro de 2016

Saudade

Já te mostrei o vídeo que fiz do meu afilhado? Ele está sambando vestido de homem das cavernas. É filho do meu irmão. É meu sobrinho e afilhado. Ele mora em Nova Iguaçu. Não, não o vejo sempre. A última vez que o vi foi em setembro quando fomos todos para lá. Essa foi a última foto que recebi dele, olha, na garupa da bicicleta. Todo paramentado.

Seus olhos brilhavam e sua voz empolgava quando falava do sobrinho/afilhado que não via com a frequência aparentemente desejada.

Por fim, perguntei: ele fala?

Sim, fala “saudade”. 

25 de novembro de 2016

Da primavera

Foi preciso um inverno de quatro estações de duração para que a primavera finalmente chegasse. Finalmente o sol voltou a brilhar. O calor não sufoca e não estressa. Os passarinhos cantam.  Às vezes, depois da chuva, aparece uma borboleta em meu quarto. Voltei a ouvir músicas leves e o meu sorriso voltou a ser natural.

Enquanto escrevo, há uma revoada de maritacas ao redor do prédio onde moro.

Há leveza novamente. 

4 de outubro de 2016

Sobre querer ficar

Já morei em 21 casas. Com minha família ou nas repúblicas pelas quais passei. Foram 21 mudanças. 

Sempre achei que, por ter me mudado várias vezes, eu já tinha uma alma cigana e que, por isso, não conseguiria ficar em um lugar por muito tempo nunca mais.

Agora isso passou. Hoje tenho vontade de me mudar mais uma vez e ficar. Não é uma vontade de criar raízes, porque acho essa metáfora perturbadora, mas sossegar o facho. Isso, bem melhor. Ter casinha decorada e saber que ela é minha. Ficar de boa. 

21 de junho de 2016

Das lembranças

Na madrugada gelada ela fecha os olhos para tentar dormir enquanto pensa que já passou um ano da última vez que o viu. Naquela tarde quente numa segunda-feira na rodoviária.

Parece que estava sentindo que não o veria mais, porque o beijava em cada pedacinho do seu rosto para guardá-lo perfeito na memória. Encostava a cabeça em seu peito e sentia seu cheiro. Cheirava sua barba até perder o ar. No fundo ela sabia. Só não queria acreditar como se desacreditando pudesse afastar essa realidade.

Lembrou que ao entrar no ônibus sentiu que era a última vez que passava aquele perrengue da viagem e até ficou aliviada. Em seguida espantou o alívio dizendo: “mas não vir mais é não vê-lo mais”.

Ela não queria mais o transtorno da viagem e nem voltar àquela cidade, mas o queria.

Ele fazia tudo valer à pena.

7 de junho de 2016

Florianópolis

Hoje fez 13º em Florianópolis. Frio. Muito frio. Mas havia sol. Eu não estava lá, mas o aplicativo do celular me mostrou que lá estava frio e com sol.

Realmente não gostava da cidade quando era moradora. Tenho muitas mágoas daquele tempo. Mágoas do lugar, de alguns moradores e da casa em que vivi. Mas hoje, com a distância do tempo e com a reflexão que o acompanha, eu gosto de lá. Até penso na possibilidade de voltar. Que não é um “apenas voltar”, inclui outros propósitos, muito maiores que somente o deslocamento.

Gosto das pessoas que conheci muitos anos após ter ido embora do sul. Precisei sair para fazer amizade com pessoas legais, acolhedoras e simples. Eu, como sempre, tomando distância para entender melhor o funcionamento da vida. É que preciso que tudo esteja mais calmo. Sem a euforia do novo, o tédio do mesmo ou o desconforto com o já gasto.

Voltei ano passado para uma visita relâmpago. Deu para ver a cidade pela janela do carro, que me pareceu um pouco mais bagunçada, mas nada caótica. Ao menos não em um sábado à tarde e em um domingo. Sou justa.

Deu saudade. Saudade de viver coisas novas em uma cidade que pouco explorei. Por birra? Também. Mas havia certa impossibilidade que não quero relatar aqui. Faz parte do processo de esquecimento das lembranças ruins.

Sei que deu saudade. Fecho os olhos e sinto novamente aquele céu azul, quase sem nuvens, o sol quentinho beijando minhas bochechas e o vento frio de cortar os poros. Sorrio. 

29 de maio de 2016

Da janela

- Meu apartamento é aquele lá, olha, o dos fundos.

- Por que escolheu morar nos fundos?

- Porque não gosto de barulho.

- Não me importo com o barulho, o que me incomoda é o sol da tarde cozinhando o apartamento.

- É, sol da tarde não é bom também não.

- Mas ter o sol da tarde é a única forma de ter o por do sol. Imagina que triste nunca ver o por do sol da janela?

13 de março de 2016

Seca pimenteira

Estava aqui tentando entender de onde vem tanta tristeza. Porque não faz sentido ela permanecer em mim há tanto tempo. E foi aí que entendi (ou acho que entendi). É daqui! É dessa cidade! Niterói e Rio (porque sim, é uma coisa só) tem uma energia ruim que suga toda a minha. Tipo seca pimenteira mesmo. Desse nível! 

Quando vim pra cá da primeira vez, em 2012, vim de coração aberto. Foi esse o problema: me abri demais e me protegi de menos. Estava tão disposta a tudo e a viver tudo que esqueci de ser arredia e retraída. Ou seja, não tive malícia. 

E foi assim que tudo o que há de ruim aqui tomou conta de mim. É como se uma sombra negra não saísse do topo da minha cabeça. Andasse sempre comigo por todos os cantos. Só me dá descanso quando saio dessa região. Basta um fim de semana em Florianópolis, por exemplo, para eu achar que a vida pode ser bela novamente e voltar a ver leveza e ter vontade de ficar. Porque estando aqui eu só consigo ter vontade de ir embora. 

Não precisa ser para Florianópolis (quem está fora do sul sempre acha que o sul é sonho... nem é!). Pode ser o inferno mesmo, que já é mais leve que aqui. Não, isso não é recalque. Até porque, se quem me lê for procurar o real significado de recalque vai saber que não é isso mesmo!

Cachoeiro de Itapemirim é melhor que aqui. É, é sim! Vitória foi a melhor cidade que morei na vida, tenho até medo de voltar por saber que nunca mais será a mesma coisa. Belo Horizonte, ao contrário daqui, tem a melhor energia do mundo, ao menos para mim. Sempre penso que um dia tenho que morar em BH. Hoje eu entendo o meu real problema com Florianópolis, e por entender, já sei que posso voltar sem problemas em ficar. E as cidades dos interiores que conheci... ficaria em quase todas. 

Hoje Lucas me disse que conhece pessoas que perceberiam esse lance da energia aos 80 anos. E que é muito bom eu já ter essa sensibilidade. Se a energia daqui está matando a minha, é melhor ir embora mesmo. 

E aqui eu fico, feito presidiária, riscando na parede os poucos dias que faltam para eu ir embora. 

24 de fevereiro de 2016

Do belo e efêmero

Nada me deixa mais feliz que um pôr do sol de outono. O céu fica com um tom alaranjado, quase avermelhado, incrível. Ao menos é assim na região sudeste do país. Às vezes fica rosa. É quando temos o pôr do sol mais lindo de todo o outono. Dura pouco tempo, alguns minutos apenas, mas tempo suficiente para eu sentir que Deus existe e que sou abençoada. Minha ansiedade, por vezes, faz meu coração acelerar num misto de obrigação para que eu aproveite ao máximo cada segundo daquele momento e na vontade de relaxar para curtir, com tranquilidade, esses poucos minutos no fim do dia quando não está nublado. É como se meu corpo nunca soubesse exatamente o que fazer quando esse momento chega.

Gosto da lua cheia também. Aquela fase amarelona dura pouco tempo, e me sinto na mesma obrigação de apreciar cada momento porque logo acaba. Logo ela estará alta e branca. Cheia ainda, mas já menos bela que minutos atrás.

Hoje me dei conta de que não sei viver a felicidade. Tenho tanto medo de ela acabar, que fico sem saber como aproveitar cada minuto. Sei que devo relaxar e curtir, mas como também sei que ela é passageira fico com a sensação de que devo apreciar intensamente segundo a segundo.

O que não posso esquecer é que, assim como o pôr do sol e a lua cheia, a felicidade volta. Não todos os dias, pois às vezes está nublado ou do canto que estou na cidade nem dá pra ver a lua apontar amarelona. Mas volta. Sempre volta. Então devo sorrir para ela, a felicidade, sentar-me ao seu lado, fazer silêncio e ser feliz. Que é como ela quer que eu seja. 

17 de fevereiro de 2016

[sem título]

Não precisa ser fácil, porque nada é fácil.
Precisa ser possível.

27 de janeiro de 2016

Sobre aquele que não entende nada de militância

Era neto de negro, mas pensava ser branco. Agia como branco senhor de escravo. Acreditava em racismo inverso. Propagava seu racismo. Pensava mesmo que era branco.

Até que seus amigos brancos, realmente brancos da América Latina, descobriram que o amigo era um mulato. 

Silêncio.

Constrangimento.