17 de abril de 2014

Ela

Mesmo quem a conhecia, sabia-a pouco. Ela não se mostrava quase nunca. E mesmo quando, raras vezes, o fazia, era um nada. Não gostava de expor o que sentia muito menos que sentia. Vestia uma capa de frieza e indiferença para esconder a paixão doída que sentia pelo cara que nunca corresponderia seu sentimento.  Acreditava que fazer de conta que não sentia nada era menos dolorido. Sofrer com plateia é pior. Embora não tivesse o sonho cego de um casamento e o menor desejo de ser mãe, ela se apaixonava e também ansiava por companhia. Era humana, apesar de fazer de tudo para não ser. Não sabia jogar. Até tentava, mas sempre metia os pés pelas mãos. Então desistia. Não gostava de competir. Abrir mão e sair de cena era mais fácil. Sempre optava pelo caminho mais fácil. Era preguiçosa. Para não sofrer mais, escolheu ficar sozinha. E sofria.

Um comentário:

sarah vervloet disse...

Sofrer com plateia é absolutamente pior e dolorosíssimo. Lembrei de uma música da Elis com o nome do seu mini-conto. E daria uma bela epígrafe para ele. Tudo a ver. Adorei!