26 de abril de 2014

Da paixão persistente

Eram muitos os desencontros. Quando alguma coisa acontecia, era por força de vontade e insistência dela. Uma vez, apenas uma vez, ela sentiu que ele tomava a iniciativa. Foi algo tão raro que demorou a entender. Houve um encontro. Depois, só desencontros. Pareciam aqueles casais estranhos de curta-animação-cult-tosco. Mas ela não desistia. Sabia que um dia os dois ficariam juntos e que esse dia não tardaria muito, pois ambos não tinham tempo. Esse amor era pra já.

Tinham suas diferenças. Era nítido quando o “defeito” de um incomodava o outro. Eles não sabiam disfarçar. Não era a intenção, mas eles se sentiam afugentados um pelo outro com suas revelações. Era necessário uma retomada de fôlego para uma nova aproximação e começar tudo de novo. Por vezes esse intervalo demorava mais de um ano.

E quando já não acreditavam mais terem a sorte de um amor tranquilo com sabor de fruta mordida, olharam-se nos olhos, sorriram e deram-se as mãos. 

17 de abril de 2014

Ela

Mesmo quem a conhecia, sabia-a pouco. Ela não se mostrava quase nunca. E mesmo quando, raras vezes, o fazia, era um nada. Não gostava de expor o que sentia muito menos que sentia. Vestia uma capa de frieza e indiferença para esconder a paixão doída que sentia pelo cara que nunca corresponderia seu sentimento.  Acreditava que fazer de conta que não sentia nada era menos dolorido. Sofrer com plateia é pior. Embora não tivesse o sonho cego de um casamento e o menor desejo de ser mãe, ela se apaixonava e também ansiava por companhia. Era humana, apesar de fazer de tudo para não ser. Não sabia jogar. Até tentava, mas sempre metia os pés pelas mãos. Então desistia. Não gostava de competir. Abrir mão e sair de cena era mais fácil. Sempre optava pelo caminho mais fácil. Era preguiçosa. Para não sofrer mais, escolheu ficar sozinha. E sofria.

4 de abril de 2014

Dos prazeres

Muitas coisas me dão prazer na vida. Apesar dos pesares, eu tenho certo prazer em viver. Não o tempo todo, mas quase todos os dias. Dormir, comer, conversar, viajar, namorar, consumir, beber, dentre outras coisas, me dão muito prazer. Sem ordem de preferência. Mas o principal, sem pieguice, é ler. Não estou falando em ler, simplesmente, mas de Literatura. Arrogância à parte, leitor de jornal e revista apenas, não é Leitor.

Em janeiro conheci Kawabata. Yasunari Kawabata, escritor japonês, Nobel de Literatura em 1968, nascido em Osaka em 1899, morto em 1972. Li A casa das belas adormecidas e me encantei. Nunca havia visto tanta delicadeza e docilidade no trato de um tema tão pesado. Como diz Ivan, amigo que me apresentou Kawabata, “parece um origami ao vento”. Em seguida li Kioto e comprei O país das neves, ainda não lido. Há duas semanas comprei também Beleza e tristeza seduzida pelo título. Infelizmente tenho que priorizar leituras mais urgentes e o Oriente ficou para depois.

Esse prazer da leitura, de descobrir novos autores e o encanto que eles podem causar, o redescobrir os já queridos e continuar me encantando, é uma das poucas coisas que me dão prazer em viver. Minha paixão pela Literatura é tamanha, que quero viver apenas disso. Se todos têm que trabalhar, que o meu seja com Literatura, pois todo o resto é fardo.

Claro que gosto de outros escritores também. Vivi um casamento de cinco anos com García Márquez, com todas as alegrias e problemas que um casamento acarreta. Não me cansei do colombiano, mas esgotei. Fernando Pessoa foi meu amante e permanece sendo. Creio que sempre será. No mais, vivo de casos por aí. Afinal, tem muita gente boa a ser lida.

Em 2014 não quero me casar, apenas amar. Sem pressa. Desde janeiro venho amando Kawabata.