7 de fevereiro de 2014

Das mudanças

          Por anos, a cada mudança que me ocorria (fosse revolta, fosse alegria), eu cortava os cabelos e retocava o vermelho. O vermelho, inclusive, representava uma fase de mudanças constantes.

          As tais eram tantas que, durante os cinco anos de vermelho no cabelo, mudei para castanho escuro, castanho acobreado e chocolate algumas vezes. Como não poderia me mudar de cidade, mudava a cor e o corte do cabelo. No entanto, no mês seguinte eu já voltava ao ruivo.

          Se terminava um namoro ou passava um ficante para trás (ou quando eu era passada para trás) retocava o vermelho ao som de “Cabidela” do Mombojó. E ficava tudo vermelho de novo... com os olhos pegando fogo.  

          Quando me cansei do vermelho, quando vi que tanto peso representado na tintura dos meus cabelos não me representava mais, passei a cortá-lo sem dó. De dois em dois meses. Já ocorreu de eu cortar duas vezes em um único mês. E tinha que ser despontado, desfiado, desconectado. Quanto mais fora do convencional, melhor.

          Até que chegou o dia que desfiei tanto os meus cabelos que não me reconheci ao me olhar no espelho. Queria parecer moderna, mas só enxergava uma perua velha que, apesar do tempo, ainda não havia se encontrado. Eu sabia o que era e sabia que eu não era aquilo que via. Assim que o cabelo cresceu um pouco, cortei para tirar metade do desfiado. Cresceu mais um pouco e tornei a cortar, tirando, assim, qualquer vestígio do passado.


          Hoje tenho os cabelos normais (ainda na altura dos ombros porque demora a crescer), com corte normal e com luzes como mais uma na multidão e, aos poucos, vou deixando de me esconder de baixo de tanto pano. Quando as mudanças passam a ser geográficas, as físicas tornam-se desnecessárias. 

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