28 de janeiro de 2014

Da poesia

Ivan me disse que a poesia é a única modalidade da escrita que lê o leitor ao invés de ser lida por ele. É verdade. Sempre que leio alguma poesia me sinto lida de uma forma que eu jamais saberia me descrever ou descrever qualquer sentimento que eu tenha.

Álvaro de Campos, por exemplo, dói-me o peito com tudo o que me diz e no fim me abraça como se me confidenciasse: eu entendo a sua dor. E viver é realmente um tédio.

Leminski, com todo o seu humor, me mostra que a dor tem sua graça. Não precisa ser a vida tão desgraçada.

Drummond percebe a sutiliza da vida, das pessoas, das ruas das cidades que passei como minhas retinas. Uma pena elas não saberem dizer tudo que veem e como veem. Nem as fotos que faço transmitem o que vejo.

Chico Buarque, na poesia de suas músicas, fala de amor, do amor que sinto, aquele quase sempre nunca correspondido, o que eu preciso entender. Não para deixar de sofrer, mas para saber que o sofrimento faz parte. Uma hora o tempo leva... e outro ocupa o lugar deixado.

Vinícius me confunde. O safado me faz acreditar que pouco amor basta e que não ser correspondida faz parte. Sendo assim, o melhor é cair de cabeça no que tem pra hoje porque no amanhã só podemos pensar amanhã. Mas o amanhã vem, Vinícius, e vem sempre acompanhado do vazio. Preciso aprender a não te dar ouvidos.


É inútil querer escrever qualquer coisa depois que leio algum desses poetas ou outro qualquer. Não consigo dizer mais nada, pois tudo já foi dito. E de um jeito que eu jamais saberia dizer. 

24 de janeiro de 2014

Casinha

          Quando meu irmão estava para casar, me falava como andava a construção da casa do futuro casal. Contava-me os detalhes, como eles queriam tudo, que tinha que ser como sempre sonharam etc. Lembro-me de ficar pensando como seria, então, a casa dos meus sonhos. E cheguei à conclusão, naquela época mesmo, de que nunca a terei, por nem saber onde fica, e se existe, o lugar perfeito para a casa perfeita.

          Sou solitária e gosto dos isolamentos, portanto a casa perfeita não seria no meio do furdunço de uma cidade, mas preciso da urbanidade próxima. Por isso, a casinha ficaria em um bairro distante e reservado de uma grande cidade. Tem que ter água por perto, ainda não sei se um riozinho ou um lago, mas água suficiente, limpa e transparente, de modo que, ao acordar eu vá até a janela do meu quarto e possa ver a luz do dia refletida no lago ou rio. Terá uma árvore frondosa perto do lago ou rio fazendo sombra no pequeno píer que dará para o lago... ou rio. Sob a sombra da frondosa árvore, terei uma ou duas poltronas confortáveis para leituras durante os dias frescos. Por falar nisso, o local da minha casa tem de ser um onde nunca faça um calor insuportável. Não existe leitura e produção com calor insuportável.

          A casa terá detalhes em madeira rústica e poucos cômodos, todos muito grandes. As paredes para o lado que dá para o lago ou rio serão de vidro para que a casa possa ter, por horas, iluminação natural, além da bela vista. Serão dois andares. No primeiro terá um cozinha americana com uma grande sala de estar/tv/jantar/leitura, com lareira para o inverno e estantes suficientes para todos os livros que eu tiver, e um banheiro, claro. No segundo andar terá dois quartos, porque uma casa dessas merece receber visita. Os dois quartos serão suítes. Fim da casa. Uma única exigência: internet!


          Lembrei agora que já vi uma casa parecida com essa antes, a casa do professor de italiano do filme “Sorriso de Monalisa”. Quero a minha assim, com toda a tranquilidade que ela parecia oferecer. 

21 de janeiro de 2014

Toda bunda se prepara para um pau no cu.

20 de janeiro de 2014

Cheiro de cigarro

Foi em 2007, na fila do R.U., quando abracei meu amigo Daniel e senti o cheiro de seu corpo, nitidamente sem banho desde o amanhecer, que me dei conta do quanto gostava desse cheiro de cigarro no corpo masculino.

No corpo feminino é diferente. É ruim, fedido. No masculino é envolvente. Instiga o olfato, dando vontade de passar o nariz, suavemente, por todo o corpo, deslizando os dedos por ele até pertencê-lo totalmente.


Não há perfume que me envolva tanto, nem a delicadeza do banho compartilhado. Só o cheiro do cigarro. 

3 de janeiro de 2014

Da despedida

          Parece que foi ontem que cheguei a Niterói com todo o peso do mundo no estômago para fazer a primeira prova do processo seletivo do mestrado da UFF. Não sabia se queria passar lá e viver coisas novas ou se queria passar na Ufes mesmo e permanecer na minha zona de conforto. Só sabia que queria passar em algum lugar. Tanto fazia. Eu não estava – eu não me sentia – em condições de exigir e nem de escolher muita coisa.

          A cada passo na cidade eu me sentia transportada para o ano de 2009, quando fui a Niterói pela primeira vez para mais um ENEL em minha vida (eu não sabia, mas aquele seria o último). Naquele ano havia toda uma pressa, um frenesi, para que tudo fosse visto, sentido e vivido, pois eu só tinha sete dias para muita coisa. Em 2011 não, queria a demora da degustação. E por saber que teria mais tempo, fiz muito menos em quase dois anos que fiz em sete dias.  

          Foram algumas idas e vindas exaustivas para, finalmente, em março de 2012 eu me mudar para lá. Havia passado no tal mestrado.

          No início eu sentia uma mistura de deslumbramento e medo do novo, para depois tudo isso se transformar em uma enorme preguiça. Niterói é bonita sim, mas acaba aí. O que vale à pena mesmo é a UFF e tudo o que ela representa para mim.

          Não fiz incontáveis amigos, até porque nunca fui disso. Sou do tipo “poucos e ótimos amigos”. E são esses que tornam a minha despedida bastante difícil. Dois anos é muito pouco para definir sentimentos e saber a falta que as pessoas vão fazer. Foi triste ter demorado tanto tempo para saber que eu poderia sim confiar nessas pessoas e que as mesmas só queriam o meu bem. Sempre quiseram. Mesmo que de um jeito diferente do esperado pela sociedade (e a sociedade lá sabe o que espera?).

          É a primeira vez que moro em uma cidade que me aborrece, mas que não quero ir embora por não querer ficar longe dessas pessoas. O que sinto é medo. Medo do esquecimento. Medo de não voltar. Medo de nunca mais sentir esse sentimento intenso que me é tão raro, e por isso mesmo tão caro. Medo de não ser mais.


          Que a distância e o tempo não nos apague da memória, que é falha e traiçoeira, e que a lei natural dos encontros nos permita os reencontros.