11 de outubro de 2013

De trem

          A Welber Santos

Sempre me senti cigana. Mudei de cidade várias vezes e de casa em algumas delas. Por conta disso, ou por conta do meu ascendente em sagitário, nunca gostei de ficar muito tempo no mesmo lugar.

A rotina me cansa. Preciso dela por um tempo, mas depois me cansa. Não é que eu queira viajar pelo mundo, ser pássaro, me sentir em um balão que sobrevoa tudo sem estar e nem sentir. Eu preciso viver os lugares! Preciso estar neles, morar neles. Por isso sou âncora.

A âncora se fixa no fundo do mar segurando o barco na superfície de algum lugar por um determinado tempo. Não tem data certa para chegar muito menos para sair. É pelo tempo que o marinheiro gostar e/ou que precisar.

Mesmo tendo o ascendente em sagitário eu não sou aventureira. Não lanço a flecha e vou para onde ela apontar. Antes de tudo, tenho sol e lua em touro. Sou racional, fixa, da terra. Por isso, além de âncora, me sinto trem. O trem segue nos trilhos, tem um destino certo, para em diferentes estações já antes determinadas e há sempre um retorno. Só um acidente tira um trem dos trilhos. Só um acidente quebra a rotina.

O trem, que está sempre indo (mas sempre volta), passa por dentro das cidades, conhece as cidades, as pessoas, é acenado por estas com os lenços da saudade. Tanto as da chegada, quanto as da partida. O trem sente!

Como o trem, estou sempre indo e com os pés no chão. Não sou como a árvore que é fixa pelas raízes. Eu não tenho raízes. Nem quero ter raízes. Se for para ser fixa, só pela âncora, que não se fixa completamente. Também não sou levada pelo vento feito balão, pois eu já sei o que quero. E por saber, vou em busca. Mesmo que custe e que demore. Mesmo que demore o tempo de uma viagem de trem em terras brasileiras. É com persistência, constância e paciência que eu chego ao destino.


Então só me resta apreciar a vista. 

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