17 de setembro de 2013

Jerônimo Monteiro

Nasci em Cachoeiro, mas cresci em uma cidadezinha próxima, chamada Jerônimo Monteiro. Lá, eu morei dos meus nove aos quatorze anos. Cada canto daquele lugar tem uma história pra contar.

Cheguei à cidade ainda menina. Morava no conhecido Morro do Boi (o porquê do apelido não me pergunte, apesar de saber a explicação prefiro não entrar em detalhes que não façam parte da minha infância). Brincava nas ruas do tal morro com um grupinho de amigas, que hoje, infelizmente, o tempo se encarregou de nos separar. Lembro-me que tinha uma casa linda cujo quintal ocupava o quarteirão inteiro. O que separava o quintal da rua era uma cerca viva que vivia florida, deixando as ruas ao redor sempre com cara de primavera.

Quase um ano depois eu me mudava para um outro bairro (se é que se pode dizer que em Jerominho tem bairro). Sei que lá era o que chamávamos de início do centro.  Foi ali que conheci os amigos que estão ao meu lado até hoje. Brinquei as brincadeiras mais inusitadas.  Virei um verdadeiro moleque de rua e sentia orgulho nisto.

A melhor brincadeira era roubar manga verde no quintal do vizinho para comer com sal. Eu, Jordana, Daniela e Priscila pulávamos o muro da casa da Jordana, munidas de faca e saleiro, e ganhávamos o quintal da sede da APAE, que possuía uma enorme mangueira a nossa disposição. As mangas geralmente estavam próximas do nosso alcance, as que não estavam eram facilmente arrancadas com a ajuda de pedras ou qualquer vara que encontrássemos. Ficávamos ali mesmo, no quintal da vítima, comendo nossas mangas, com as armas e as provas do crime nas mãos. Mas esse tipo de “furto” sempre foi comum em Jerônimo, nunca fomos vistas como ladras e nem nos sentíamos assim.

Aos treze anos me mudei para outro bairro: Pedregal. E ali permaneci até minha volta a Cachoeiro que se deu aos quatorze anos.

Meus amigos de escola, que então moravam próximo ao meu novo endereço, passaram a frequentar minha casa estreitando os laços de amizade.

Com a ajuda da minha bicicleta, que é o meio de transporte mais eficaz em Jerônimo Monteiro, principalmente para uma adolescente, continuava visitando minhas amigas do antigo endereço e elas faziam o mesmo comigo.

Depois de seis anos saída de JM, idas e vindas a Cachu, um período de dez meses morando em Florianópolis, cinco anos em Vitória e quase dois em Niterói (sou quase uma cigana), posso dizer que fiquei tão urbana a pondo de não ser mais capaz de subir num muro. Hoje, quando vou a JM, sou chamada de “poia” pelas minhas amigas.

Mesmo assim eu continuo fazendo questão de visitar esta cidade, ainda que a tal visita esteja cada vez mais escassa. Não estou fazendo pouco caso das outras cidades que morei, mas sim demonstrando meu carinho e consideração por aquela que é pequena, humilde e ingênua, que me ajudou a crescer, a andar de bicicleta e a entender o verdadeiro valor de um banco de pracinha. 

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