28 de setembro de 2013

Olhos que riem

Quem me conhece sabe que não morro de amores por crianças. Até sinto certo encanto, mas não as quero para mim. O que me comove mesmo, faz meus olhos brilharem, são os idosos. Eles têm um olhar diferente dos mais novos. Um olhar puro e cheio de memória.

São os idosos de rua, os que trabalham no sinal vendendo paçoca, os que pedem comida, que me deixam de coração partido, com vontade de levá-los para minha casa, de cuidar de todos eles. 

O pouco cabelo na cabeça, todos brancos, os braços enrugados, o rosto caído, o andar devagar, o sorriso no olhar e a forma como agradecem me dão um “não sei quê” de vontade de abraçá-los. Eles têm um corpo que pede e/ou chama (para o) abraço.

Dia desses eu estava na rua, imprensada na calçada, esperando um casal de idosos passar. Na minha frente havia uma moça com um carrinho de bebê, quando ela chegou para trás deu para ver que o bebê aparentava ter um mês apenas. O casal de idosos vinha, ele se apoiando na bengala e ela se apoiando nele, bem devagar. O tempo que demorou foi o suficiente para eu me fascinar com a cena e pensar que, se existe casamento para além do evento, ele tem de ser assim, um eterno companheirismo. Nada mais que isso. Já ao meu lado percebo que os dois admiram a beleza do bebê, nisso a senhorinha, muito racional, diz: pena é que cresce! Eu sorrio para ela com a malícia de quem concorda. E o senhorzinho, cheio de poesia, diz apenas: pena é que ele está chegando e eu estou indo embora. 

17 de setembro de 2013

Jerônimo Monteiro

Nasci em Cachoeiro, mas cresci em uma cidadezinha próxima, chamada Jerônimo Monteiro. Lá, eu morei dos meus nove aos quatorze anos. Cada canto daquele lugar tem uma história pra contar.

Cheguei à cidade ainda menina. Morava no conhecido Morro do Boi (o porquê do apelido não me pergunte, apesar de saber a explicação prefiro não entrar em detalhes que não façam parte da minha infância). Brincava nas ruas do tal morro com um grupinho de amigas, que hoje, infelizmente, o tempo se encarregou de nos separar. Lembro-me que tinha uma casa linda cujo quintal ocupava o quarteirão inteiro. O que separava o quintal da rua era uma cerca viva que vivia florida, deixando as ruas ao redor sempre com cara de primavera.

Quase um ano depois eu me mudava para um outro bairro (se é que se pode dizer que em Jerominho tem bairro). Sei que lá era o que chamávamos de início do centro.  Foi ali que conheci os amigos que estão ao meu lado até hoje. Brinquei as brincadeiras mais inusitadas.  Virei um verdadeiro moleque de rua e sentia orgulho nisto.

A melhor brincadeira era roubar manga verde no quintal do vizinho para comer com sal. Eu, Jordana, Daniela e Priscila pulávamos o muro da casa da Jordana, munidas de faca e saleiro, e ganhávamos o quintal da sede da APAE, que possuía uma enorme mangueira a nossa disposição. As mangas geralmente estavam próximas do nosso alcance, as que não estavam eram facilmente arrancadas com a ajuda de pedras ou qualquer vara que encontrássemos. Ficávamos ali mesmo, no quintal da vítima, comendo nossas mangas, com as armas e as provas do crime nas mãos. Mas esse tipo de “furto” sempre foi comum em Jerônimo, nunca fomos vistas como ladras e nem nos sentíamos assim.

Aos treze anos me mudei para outro bairro: Pedregal. E ali permaneci até minha volta a Cachoeiro que se deu aos quatorze anos.

Meus amigos de escola, que então moravam próximo ao meu novo endereço, passaram a frequentar minha casa estreitando os laços de amizade.

Com a ajuda da minha bicicleta, que é o meio de transporte mais eficaz em Jerônimo Monteiro, principalmente para uma adolescente, continuava visitando minhas amigas do antigo endereço e elas faziam o mesmo comigo.

Depois de seis anos saída de JM, idas e vindas a Cachu, um período de dez meses morando em Florianópolis, cinco anos em Vitória e quase dois em Niterói (sou quase uma cigana), posso dizer que fiquei tão urbana a pondo de não ser mais capaz de subir num muro. Hoje, quando vou a JM, sou chamada de “poia” pelas minhas amigas.

Mesmo assim eu continuo fazendo questão de visitar esta cidade, ainda que a tal visita esteja cada vez mais escassa. Não estou fazendo pouco caso das outras cidades que morei, mas sim demonstrando meu carinho e consideração por aquela que é pequena, humilde e ingênua, que me ajudou a crescer, a andar de bicicleta e a entender o verdadeiro valor de um banco de pracinha. 

12 de setembro de 2013

O homem do vinho e do poema só se apaixona por olhos verdes.
Repara: todas têm olhos verdes. Todas!

http://www.youtube.com/watch?v=SbcGsgqvUaA

6 de setembro de 2013

Exorcizando

O conheci em 2007. Estava no Porto com minha amiga no Tributo a Sergio Sampaio. Era dia 18 de maio. Apesar da ótima memória que tenho, lembro bem o dia por ter sido logo após o meu aniversário, mas isso não vem ao caso. O que importa é que em 2007, no Porto, o vi pela primeira vez. Estava a três pessoas atrás de mim. Usava camisa vermelha, barba e óculos. Era lindo! Ao menos eu achava.

Ficamos algumas vezes naquele ano. Sem querer, fui intensa demais e ele não curtiu. Sumiu. Sem o medo que hoje tenho, liguei. Ele disse que preferia ir com calma porque tinha terminado um namoro fazia pouco tempo e não queria se envolver tão cedo. Fiquei calma. E ele sumiu mais ainda. Até que o vi pela Ufes e, sem o medo que tenho hoje, fui atrás e perguntei o que estava acontecendo. Ele disse que havia voltado para a namorada. Expliquei que eu não mordia, que não estava apaixonada e nem queria casar, mas que não gostava da ideia de ter que adivinhar o sentimento alheio, e nem os pensamentos. Quando não quisesse ficar comigo mais era para fazer como fez quando teve interesse: dizer.

Foi assim que perdemos o mínimo de liberdade que tínhamos. Não nos falamos mais. Ele namorou. Eu namorei. Eu terminei antes. Ele terminou uns meses depois. Em 2009 voltamos a ficar. E dessa vez eu tinha medo, muito medo de me apegar. Queria me defender e escolhi ser misteriosa. Mal sabia eu que só conseguia ser fria. Ou maluca. E acho que, naquele ano, ele não me entendeu.

Perdi a paciência com a falta de compreensão dele e parei de procurar. Ele procurou, mas escolhi ser grossa. Ele sumiu. Arrumou uma amante, aquela com quem flertava antes, quando ainda ficávamos. A mocinha até hoje me olha torto, coitada. Depois ele arrumou outra mocinha. Eu arrumava vários, mas não estava propriamente com ninguém. E me sentia bem assim.

Em 2010 ficamos de novo. Mas foi só uma vez, se não me engano. Saudade anual.

Em 2011 queria entender o que rolava. Havia ficado com ele mais duas vezes. Pensava no passado e não conseguia entender o que vira nele e porque eu fora tão apaixonada. Seu beijo nunca acompanhou o meu, o abraço era frouxo e o sexo só foi bom, de fato, uma única vez, na primeira de 2011. No entanto, havia uma eletricidade.

Até que um dia desencantei. Ainda me peguei pensando nele nos momentos de solidão sem nunca saber se era saudade ou vazio. Eu nunca soube diferenciar uma coisa da outra com determinadas pessoas.

Por fim, ficamos mais uma vez em 2012. Já não morávamos mais na mesma cidade, nem no mesmo estado, mas ele veio. Foi estranho, pois não havia mais a eletricidade. Só consegui sentir meu corpo se despedindo de outro corpo que estivera comigo, direta ou indiretamente, por anos, mas que precisava ir embora. Outros estavam pra chegar.

Isso não é um virar de página. Isso é uma troca de livro num sebo.

3 de setembro de 2013

Sutilezas

Em Niterói, horário de verão de fevereiro de 2013, dois irmão, crianças e uniformizadas, andam juntas à babá. É horário de saída da escola. A rua está lotada de carros e ônibus também lotados. A calçada também está lotada. Os dois meninos, aparentando terem seis e cinco anos cada, se abraçam e caminham juntos e sorridentes. Eu não aguento apenas observar e falo: que lindo! A babá olha pra trás e sorri. Era realmente lindo!

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Em Cachoeiro um senhor, vendedor de picolé, sentado em um banco de pedra da ponte municipal, observa, carrancudo, quem passa pela ponte às 15h no calor de 34 graus em pleno inverno. Noto que ele se esgueira para o lado fazendo uma careta mais carrancuda que antes. Ouço o barulho de um flato.

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Crianças da rua jogam bola em uma tarde ensolarada. Cachoeiro é repleta de morros. A rua é mais um desses morros. Um artefato de madeira foi colocado na parte de baixo e outo no alto do morro. Será que alguém pensou que quem faz gol pra cima fica prejudicado?

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O menino joga areia no carro estacionado em frente a sua casa. Ele nem sabe de quem é tal carro, mesmo assim joga areia em cima. Joga areia como se fosse água, limpa com as mãozinhas como faz o trabalhador do posto de gasolina. Como se a areia pudesse limpar o carro já bastante sujo. Uma moça chega da varanda de uma casa em frente e grita: Ei, mocinho, não pode fazer isso não! Era, certamente, a dona do carro. O menino, muito assustado, diz apenas, de sobressalto: eu sei. E corre para casa.

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A moça esperava o namorado na porta do trabalho. Este estava em uma reunião. Avisara a ela que podia almoçar sem ele, pois iriar demorar. Não valia à pena esperar, mas ela queria a companhia dele feito cão sem dono. Passou cerca de duas horas sentada na escada da porta do escritório. Quando o moço sai, ela briga: Poxa, fulano, tô aqui faz duas horas te esperando pra gente almoçar! O restaurante já deve tá fechando. Ele apenas diz: mas não pedi que me esperasse. Ela faz um muxoxo, ele também. Os dois se abraçam e vão embora.