1 de agosto de 2013

A Fada

Quando criança sonhava receber cartas. Mas aos 11 anos de idade não se recebe muita correspondência. Em geral, não se recebe nenhuma.

Como passava a maior parte do dia em casa sozinha, sempre pegava as cartas que o carteiro, único em Jerônimo Monteiro, vinha trazer para minha mãe. Achava o máximo aquela quantidade de correspondência diária. Ainda não entendia que era tudo conta e/ou propaganda de alguma coisa. Carta mesmo, que é bom, quase não vinha. E quando vinha, eu sabia que isso era muito pessoal e eu não podia mexer. Já as contas, ou o que fosse, abria todas!

Adorava aquela sensação de rasgar os envelopes, um por um, como se todos fossem cartas para mim. Sem mencionar quando eu as jogava todas para o alto e pegava uma no ar fazendo a Xuxa. Para a minha tristeza, a graça ia embora rápido. Nada ali era para mim. E nada tinha algo bom para eu ler. Então continuava reclamando que nunca recebia uma carta sequer e, ainda assim, tinha que receber aquele montão de carta todo dia que não eram minhas.

Minha mãe, linda que só, penalizada com minha tristeza e na tentativa de me alegrar, começou a me escrever cartas com a ajuda e cumplicidade de uma amiga, a Ivani. As duas digitavam cartas nas quais escreviam “você é linda”, “você é uma menina muito especial” ou “quero ser sua amiga”, e assinavam sempre A FADA.

O tempo que levou para eu descobrir que eram as duas que faziam isso foi o suficiente para o tal carteiro achar fofo e depois passar a me gongar com a história. Por ser o único carteiro e de uma cidade tão pequena, ele sabia muito bem a quem as cartas se destinavam. E já havia gravado quem recebia cartas, semanalmente, de uma fada. Da felicidade eu passei rapidamente à vergonha e irritação pré-adolescente. Reclamei tanto, mas tanto, dizendo sempre que aquilo era uma bobeira, que queria receber carta de gente, e de gente que eu conhecesse, que minha mãe e Ivani contaram a farsa e nunca mais recebi cartas da Fada.

Com o tempo e com as amizades vindouras, passei a me corresponder com amigos e o fiz até a fixação da internet na vida de todos e falta de interesse alheio, atualmente minha também, em escrever longos textos.


E por todos os anos após as minhas primeiras cartas, o mesmo carteiro continuou a trabalhar por lá. Eu me mudei algumas vezes de endereço na mesma cidade, mas continuei sendo a menina da Fada. 

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