5 de maio de 2013

(Quase) nada lindo ou maravilhoso


Há uns anos meu sonho era morar no Rio. Fiz o vestibular da UERJ como se estivesse decidindo o meu fim ou o meu início. Dei um peso muito maior para essa universidade que para UFV ou UFES. Mas só passei para última. Só me mudei de cidade, o estado continuava o mesmo.

Até sair o resultado final da UFES eu chorei demais. Primeiro por não passar em nada, mais uma vez. Segundo porque me senti perdendo uma oportunidade única de morar no lugar onde as pessoas passam férias (carioca adora dizer isso). Tudo o que planejei tinha sido em vão. Mas logo esqueci, pois morar em Vitória foi maravilhoso. Nunca me preocupei em construir novos laços afetivos, já que quase todos os meus amigos de Cachoeiro moravam lá também. E os novos círculos, amigos de curso e de universidade, foram surgindo aos poucos, sem eu perceber.

Ainda assim, o Rio estava sempre presente. Ao menos uma vez no mês alguém vinha falar do Rio como se fosse o melhor lugar do mundo para se viver. Turista confunde muito a realidade. E essas conversas sobre a cidade aumentava muito a minha vontade de passear por lá. Já nem pensava mais em morar. Até que em 2009 fui a UFF, em Niterói, para o meu último ENEL. Mas nesse caso a cidade é um mundo a parte, não conheci Niterói como deveria e nem fiz muito turismo no Rio. Senti que foi pouco para me deslumbrar.  

Voltei ao Rio no mesmo ano para a Bienal do livro. Dessa vez fiquei hospedada em Copacabana, fui à Lapa uma noite, e caminhei pela orla da praia numa manhã de sol e praia lotada. Ali me senti deslumbrada. Tive vontade de morar em Copacabana, em nenhum outro lugar. Mas não era o suficiente. Não sentia ainda o que meus amigos sentiam.

O tempo passou e eu passei no mestrado da UFF. Já faz um ano que moro em Niterói, fui algumas noites à Lapa, passeio sempre que posso pelo centro do Rio – entre Cinelândia e Confeitaria Colombo, passando pelos museus –, passei tardes de sol em Santa Teresa e fui à praia em Ipanema. E continuo não me deslumbrando.

Ocorre o contrário: quando penso que posso começar a gostar de Niterói ou do Rio (é a mesma coisa, mas aqui tem mais classe-média-sofrista) chove e tudo alaga, as pessoas são facilmente/ridiculamente assaltadas, o valor do aluguel é surreal (e por melhor que seja o seu bairro, ele também vai alagar), a hipocrisia dos imobiliários é nojenta, o transito é infernal, o motorista do ônibus decide se vai parar ou não para você entrar, quando chove você vai ter que esperar no ponto por uma hora e quando o ônibus chegar você vai demorar mais uma hora pra fazer o trajeto que dura cinco minutos (porque tudo alaga!) e ainda tem mané para aplaudir o pôr do sol.

Cartão postal, além de nunca mostrar o lado B da cidade, mente ao mostrar o lado A. E assim o turista já chega deslumbrado. Chico Buarque, na música “Subúrbio”*, já tinha me dado o recado. Eu que não quis ouvir. 


*"Lá não tem claro-escuro
A luz é dura
A chapa é quente
Que futuro tem
Aquela gente toda
Perdido em ti
Eu ando em roda
É pau, é pedra
É fim de linha
É lenha, é fogo, é foda"

2 comentários:

DanielFolador disse...

Pois é, esse ano tinha chance da empresa ter me alocado no Rio... Consegui ficar em Vitória, mas muito amigo meu tá passando perrengue com aluguel na cidade maravilhosa. A especulação imobiliária surtou :/

sarah vervloet disse...

Olha, moça, eu estou indo assistir às aulas na Uerj e, a primeira vez que fiquei durante 3 dias depois dessa decisão, pensei que seria o momento de "ouro" pra mim: tentar ou não o doutorado no Rio. Digamos que foi mesmo, só que a conclusão foi oposta: não quero morar na cidade maravilhosa - e nem em Niterói. Eu concordo com tudo o que você disse, mas eu ainda nem presenciei os alagamentos. Ou seja, a tendência é piorar.

É aquela história: podem falar o que quiser, mas Vitorinha ainda é uma boa opção. Cachu também, se me permite. E que os turistas que se...