22 de novembro de 2013

Do retorno

          Recomeçar é sempre desagradável, ao menos para mim, pois tenho muita dificuldade em lidar com o novo. O lado ruim de saber exatamente o que quer da vida é que quando uma coisa desanda, o restante do plano fica em suspenso. É como um jogo de tabuleiro: sabemos o fim da linha e temos a certeza de que queremos chegar até lá, mas, por alguma eventualidade, precisamos voltar uma casa, ou duas, ou três... E no momento do retorno da casa sempre sentimos aquela terrível sensação da derrota. O jogo ainda não terminou e sabemos disso. O que não quer dizer que deixamos de sofrer.

          Desde 2007 que estou fora de casa, fora de Cachoeiro. E agora estou me preparando para voltar no ano que vem. Não para ficar de vez, porque não sou do tipo que fica de vez em lugar nenhum. O retorno à casa anterior é para ganhar fôlego e continuar o jogo. Voltar tem seu lado bom, principalmente quando envolve a família e a saudade eterna que sinto de todos. No entanto estou triste em ter que voltar, pois “freio” não é palavra que existe no vocabulário de quem é frenética. O bom em estar “triste” (uso aspas porque não sei se é exatamente tristeza o que sinto) é a falta de expectativa criada. Dessa forma, o que vier é lucro. Nada é mais agradável do que se surpreender com o inesperado, com o banal, com o velho conhecido de todos nós.

          O calor da bexiga, da moléstia, senegalês, escaldante, (é tão quente que nem sei descrever), de Cachoeiro não é o pior do ES e nem do país, muito menos do mundo! Vitória, Niterói e Rio, por exemplo, têm mar, mas se você estiver longe dele sentirá tanto calor, ou mais, que se sente em Cachoeiro. Depois que fui a Belém do Pará no mês de julho, o mais quente da região Norte, nunca mais me atrevi a reclamar do calor da minha cidade.

          Novos bares abriram, novos restaurantes também, conheci algumas pessoas enquanto estive fora... Enfim, recomeçar, retornar, redescobrir. O antigo pode ter novos sabores.


          Retornar é difícil, recomeçar é penoso, mas é estar em movimento. Triste mesmo, sofrido de verdade, é ficar parado, ser árvore. E raízes, meus caros, é tudo o que eu não quero ter. Já disse isso antes e vou continuar dizendo: sou âncora, pois não fico à deriva por muito tempo e nem em um mesmo lugar. 

8 de novembro de 2013

Jardim da Penha

          Dos cinco anos que morei em Vitória, todos foram no bairro Jardim da Penha. Um ano na pracinha da Flash, um ano e meio no ponto final e todo o resto na pracinha do Epa, o melhor local, segundo minha experiência, para se morar no bairro. E Jardim da Penha, sem sombras de dúvida, é o melhor bairro de Vitória. Não porque é caro ou de classe média, como dizem, mas porque é jovem sem o peso do alternativo que reina em Vix. Fora que existem locais mais caros na cidade e realmente sofisticados, mas não é disso que estou falando.

          Não pretendo escrever para quem não conhece o bairro, isso todo mundo faz. Quero escrever para os seus velhos conhecidos, moradores e frequentadores. Aos que amam a certeza de que o mar tá ali na frente, mesmo raramente indo até lá. Aos que nunca entraram em uma academia na vida, mas nem por isso deixam de fazer uma atividade física, pois o calçadão tá logo ali. Aos que mesmo com praia e calçadão no bairro preferem o boteco, que tem aos montes e cerca o morador por todos os lados o convencendo de que o melhor é sentar e beber porque caminhar ou correr é muito cansativo.

          Apesar de três supermercados, um hortifruti e diversas padarias, bom mesmo é a feira do sábado de manhã, que fica ainda mais agradável para quem estava na Lama bebendo até às 6h e precisa de um pastel com salada e café. E a rua da Lama para mim se resume em um único bar, o Cochicho, que mesmo não aceitando cartão (creio que nunca aceitará) e não tendo o melhor tratamento do mundo, tem os melhores frequentadores e a melhor trilha sonora, até quando não é ao vivo.

          Sinto muita falta da rotina do bairro. Dos meus amigos de Cachoeiro que também moram lá. Dos restaurantes que eu ia almoçar e encontrava rostos já conhecidos de vários desconhecidos. Da feira de comida e artesanato nas sextas à noite. Dos hambúrgueres salvadores da pátria nas madrugadas. De sair da Ufes à noite, passar pela Lama e sempre encontrar alguém para conversar, como o Danilo ou Viniboy! Dos amigos da Letras sempre me fazendo sorrir, seja na Lama, seja na Ufes ou nos rocks da mesma.


          Já me mudei demais e sinto que vou continuar me mudando. Acredito que todo nômade tenha um lugar no mundo para se sentir em casa, o meu é Jardim da Penha. Não é Vitória ou todo o Espírito Santo, é o bairro Jardim da Penha. A rua 7 ainda não me cativou. Creio que nem vá. Modismo passa e eu sou vintage. 

25 de outubro de 2013

Estou trocando bolero por fado.

A dor é a mesma.

Das cartas


          Semana passada recebi uma carta de um amigo. Ele anunciou a vontade de escrever “cartas, dessas que se envia pelo correio” em seu Facebook. Imediatamente, várias amigas mostraram interesse pela correspondência. Eu fui uma delas. A carta em si, não era grande coisa. Ele foi neutro o suficiente para eu não ver necessidade alguma daquele papel. Se era para não escrever nada, que não escrevesse nada. Falta de paciência à parte, o ato de escrever uma carta despertou em mim lembranças da adolescência.

          Aos 13 anos passei meu primeiro verão histórico em Piúma (foram muitos!). Minha amiga Carla conhecia várias pessoas e não era nada tímida, como se diz: era (e ainda é) boa de papo! Por causa dela, conheci muita gente. No entanto, quem ficou daquele verão foi o Guilherme. Um mineiro de Juiz de Fora velho conhecido da Carla, pois ela já era amiga dele a da prima, Camila, de outros verões. Foi ele a primeira pessoa que me correspondi por carta. Naquele tempo não era fácil ter internet como hoje, eu mesma nem sabia como isso funcionada. E chamadas interurbanas eram muito caras. A comunicação teria de ser por cartas.

          No início foram muitas, coisa de cinco cartas seguidas. Mas como todo contato à distância, as cartas foram rareando até que terminaram. Consequência de um retorno ao mundo real pós-férias. Quem nunca?! O silêncio das cartas não duravam muito, bastava outro verão para tudo voltar como antes. A cada verão surgiam novos amigos de outras cidades e estados. Mais amigos geravam mais cartas.

          Não me correspondi somente com os amigos do verão e as cartas não eram somente dessas de se enviar pelo correio. Tomei gosto pela coisa e comecei a escrever para os amigos da mesma cidade. Entregava as cartas pessoalmente na casa de cada um, ou na escola mesmo, quando escrevia para Carla (que estudava junto comigo) ou para Jordana. Declarar o amor eterno por uma amizade (que tem sido eterna ainda hoje) precisava ser por escrito, já que não sabia, e ainda não sei, falar.

          Quando me mudei de Jerônimo para Cachoeiro cheguei a escrever para Carla algumas vezes. Não continuei a brincadeira porque precisava viver as novas amizades (que não duraram muito) e Carla fazia o mesmo em Alegre.

         Em 2004 passei 10 meses em Florianópolis. Não fiz muita amizade por lá e vivia emburrada. Eu não tinha internet em casa e decidi escrever cartas para os amigos. Péssima ideia! Eu, em um romantismo que não existia mais, querendo me comunicar com quem estava conectado e não queria saber de outra coisa?! Ryan, Aécio e Jordana bem que tentaram, mas não durou muito. Mais parecia correspondência em tempos de guerra, de tão demorada que era a resposta. Que bom que voltei!

         Atualmente, pelo correio eu só recebo contas e livros. E-mail é para o contato profissional e para os amigos existe a rede social. E ao responder o amigo neutro, vi o quanto é difícil escrever uma carta para dizer algo diferente do que já dizemos tanto na janelinha do Facebook. Não há fofoca que espere três dias para ser contada e mais três pela reação. Isso, se considerarmos resposta imediata, o que já sabemos que nem sempre ocorre.  

24 de outubro de 2013

Eu tentei ser moderna, mas não consegui.
Eu tentei desacreditar no amor, mas acredito.
Meu coração não se cansa.
Eu tentei aceitar a poligamia, mas sou monogâmica e ainda tenho esperança na fidelidade. 

Eu tentei ser moderna, juro que tentei, mas só sei ser vintage. 

11 de outubro de 2013

De trem

          A Welber Santos

Sempre me senti cigana. Mudei de cidade várias vezes e de casa em algumas delas. Por conta disso, ou por conta do meu ascendente em sagitário, nunca gostei de ficar muito tempo no mesmo lugar.

A rotina me cansa. Preciso dela por um tempo, mas depois me cansa. Não é que eu queira viajar pelo mundo, ser pássaro, me sentir em um balão que sobrevoa tudo sem estar e nem sentir. Eu preciso viver os lugares! Preciso estar neles, morar neles. Por isso sou âncora.

A âncora se fixa no fundo do mar segurando o barco na superfície de algum lugar por um determinado tempo. Não tem data certa para chegar muito menos para sair. É pelo tempo que o marinheiro gostar e/ou que precisar.

Mesmo tendo o ascendente em sagitário eu não sou aventureira. Não lanço a flecha e vou para onde ela apontar. Antes de tudo, tenho sol e lua em touro. Sou racional, fixa, da terra. Por isso, além de âncora, me sinto trem. O trem segue nos trilhos, tem um destino certo, para em diferentes estações já antes determinadas e há sempre um retorno. Só um acidente tira um trem dos trilhos. Só um acidente quebra a rotina.

O trem, que está sempre indo (mas sempre volta), passa por dentro das cidades, conhece as cidades, as pessoas, é acenado por estas com os lenços da saudade. Tanto as da chegada, quanto as da partida. O trem sente!

Como o trem, estou sempre indo e com os pés no chão. Não sou como a árvore que é fixa pelas raízes. Eu não tenho raízes. Nem quero ter raízes. Se for para ser fixa, só pela âncora, que não se fixa completamente. Também não sou levada pelo vento feito balão, pois eu já sei o que quero. E por saber, vou em busca. Mesmo que custe e que demore. Mesmo que demore o tempo de uma viagem de trem em terras brasileiras. É com persistência, constância e paciência que eu chego ao destino.


Então só me resta apreciar a vista. 

5 de outubro de 2013

Lusitana

Desde que me mudei para Niterói que só escrevo sobre saudade.
Fui me tornando lusitana e não tinha percebido.

28 de setembro de 2013

Olhos que riem

Quem me conhece sabe que não morro de amores por crianças. Até sinto certo encanto, mas não as quero para mim. O que me comove mesmo, faz meus olhos brilharem, são os idosos. Eles têm um olhar diferente dos mais novos. Um olhar puro e cheio de memória.

São os idosos de rua, os que trabalham no sinal vendendo paçoca, os que pedem comida, que me deixam de coração partido, com vontade de levá-los para minha casa, de cuidar de todos eles. 

O pouco cabelo na cabeça, todos brancos, os braços enrugados, o rosto caído, o andar devagar, o sorriso no olhar e a forma como agradecem me dão um “não sei quê” de vontade de abraçá-los. Eles têm um corpo que pede e/ou chama (para o) abraço.

Dia desses eu estava na rua, imprensada na calçada, esperando um casal de idosos passar. Na minha frente havia uma moça com um carrinho de bebê, quando ela chegou para trás deu para ver que o bebê aparentava ter um mês apenas. O casal de idosos vinha, ele se apoiando na bengala e ela se apoiando nele, bem devagar. O tempo que demorou foi o suficiente para eu me fascinar com a cena e pensar que, se existe casamento para além do evento, ele tem de ser assim, um eterno companheirismo. Nada mais que isso. Já ao meu lado percebo que os dois admiram a beleza do bebê, nisso a senhorinha, muito racional, diz: pena é que cresce! Eu sorrio para ela com a malícia de quem concorda. E o senhorzinho, cheio de poesia, diz apenas: pena é que ele está chegando e eu estou indo embora. 

17 de setembro de 2013

Jerônimo Monteiro

Nasci em Cachoeiro, mas cresci em uma cidadezinha próxima, chamada Jerônimo Monteiro. Lá, eu morei dos meus nove aos quatorze anos. Cada canto daquele lugar tem uma história pra contar.

Cheguei à cidade ainda menina. Morava no conhecido Morro do Boi (o porquê do apelido não me pergunte, apesar de saber a explicação prefiro não entrar em detalhes que não façam parte da minha infância). Brincava nas ruas do tal morro com um grupinho de amigas, que hoje, infelizmente, o tempo se encarregou de nos separar. Lembro-me que tinha uma casa linda cujo quintal ocupava o quarteirão inteiro. O que separava o quintal da rua era uma cerca viva que vivia florida, deixando as ruas ao redor sempre com cara de primavera.

Quase um ano depois eu me mudava para um outro bairro (se é que se pode dizer que em Jerominho tem bairro). Sei que lá era o que chamávamos de início do centro.  Foi ali que conheci os amigos que estão ao meu lado até hoje. Brinquei as brincadeiras mais inusitadas.  Virei um verdadeiro moleque de rua e sentia orgulho nisto.

A melhor brincadeira era roubar manga verde no quintal do vizinho para comer com sal. Eu, Jordana, Daniela e Priscila pulávamos o muro da casa da Jordana, munidas de faca e saleiro, e ganhávamos o quintal da sede da APAE, que possuía uma enorme mangueira a nossa disposição. As mangas geralmente estavam próximas do nosso alcance, as que não estavam eram facilmente arrancadas com a ajuda de pedras ou qualquer vara que encontrássemos. Ficávamos ali mesmo, no quintal da vítima, comendo nossas mangas, com as armas e as provas do crime nas mãos. Mas esse tipo de “furto” sempre foi comum em Jerônimo, nunca fomos vistas como ladras e nem nos sentíamos assim.

Aos treze anos me mudei para outro bairro: Pedregal. E ali permaneci até minha volta a Cachoeiro que se deu aos quatorze anos.

Meus amigos de escola, que então moravam próximo ao meu novo endereço, passaram a frequentar minha casa estreitando os laços de amizade.

Com a ajuda da minha bicicleta, que é o meio de transporte mais eficaz em Jerônimo Monteiro, principalmente para uma adolescente, continuava visitando minhas amigas do antigo endereço e elas faziam o mesmo comigo.

Depois de seis anos saída de JM, idas e vindas a Cachu, um período de dez meses morando em Florianópolis, cinco anos em Vitória e quase dois em Niterói (sou quase uma cigana), posso dizer que fiquei tão urbana a pondo de não ser mais capaz de subir num muro. Hoje, quando vou a JM, sou chamada de “poia” pelas minhas amigas.

Mesmo assim eu continuo fazendo questão de visitar esta cidade, ainda que a tal visita esteja cada vez mais escassa. Não estou fazendo pouco caso das outras cidades que morei, mas sim demonstrando meu carinho e consideração por aquela que é pequena, humilde e ingênua, que me ajudou a crescer, a andar de bicicleta e a entender o verdadeiro valor de um banco de pracinha. 

12 de setembro de 2013

O homem do vinho e do poema só se apaixona por olhos verdes.
Repara: todas têm olhos verdes. Todas!

http://www.youtube.com/watch?v=SbcGsgqvUaA

6 de setembro de 2013

Exorcizando

O conheci em 2007. Estava no Porto com minha amiga no Tributo a Sergio Sampaio. Era dia 18 de maio. Apesar da ótima memória que tenho, lembro bem o dia por ter sido logo após o meu aniversário, mas isso não vem ao caso. O que importa é que em 2007, no Porto, o vi pela primeira vez. Estava a três pessoas atrás de mim. Usava camisa vermelha, barba e óculos. Era lindo! Ao menos eu achava.

Ficamos algumas vezes naquele ano. Sem querer, fui intensa demais e ele não curtiu. Sumiu. Sem o medo que hoje tenho, liguei. Ele disse que preferia ir com calma porque tinha terminado um namoro fazia pouco tempo e não queria se envolver tão cedo. Fiquei calma. E ele sumiu mais ainda. Até que o vi pela Ufes e, sem o medo que tenho hoje, fui atrás e perguntei o que estava acontecendo. Ele disse que havia voltado para a namorada. Expliquei que eu não mordia, que não estava apaixonada e nem queria casar, mas que não gostava da ideia de ter que adivinhar o sentimento alheio, e nem os pensamentos. Quando não quisesse ficar comigo mais era para fazer como fez quando teve interesse: dizer.

Foi assim que perdemos o mínimo de liberdade que tínhamos. Não nos falamos mais. Ele namorou. Eu namorei. Eu terminei antes. Ele terminou uns meses depois. Em 2009 voltamos a ficar. E dessa vez eu tinha medo, muito medo de me apegar. Queria me defender e escolhi ser misteriosa. Mal sabia eu que só conseguia ser fria. Ou maluca. E acho que, naquele ano, ele não me entendeu.

Perdi a paciência com a falta de compreensão dele e parei de procurar. Ele procurou, mas escolhi ser grossa. Ele sumiu. Arrumou uma amante, aquela com quem flertava antes, quando ainda ficávamos. A mocinha até hoje me olha torto, coitada. Depois ele arrumou outra mocinha. Eu arrumava vários, mas não estava propriamente com ninguém. E me sentia bem assim.

Em 2010 ficamos de novo. Mas foi só uma vez, se não me engano. Saudade anual.

Em 2011 queria entender o que rolava. Havia ficado com ele mais duas vezes. Pensava no passado e não conseguia entender o que vira nele e porque eu fora tão apaixonada. Seu beijo nunca acompanhou o meu, o abraço era frouxo e o sexo só foi bom, de fato, uma única vez, na primeira de 2011. No entanto, havia uma eletricidade.

Até que um dia desencantei. Ainda me peguei pensando nele nos momentos de solidão sem nunca saber se era saudade ou vazio. Eu nunca soube diferenciar uma coisa da outra com determinadas pessoas.

Por fim, ficamos mais uma vez em 2012. Já não morávamos mais na mesma cidade, nem no mesmo estado, mas ele veio. Foi estranho, pois não havia mais a eletricidade. Só consegui sentir meu corpo se despedindo de outro corpo que estivera comigo, direta ou indiretamente, por anos, mas que precisava ir embora. Outros estavam pra chegar.

Isso não é um virar de página. Isso é uma troca de livro num sebo.

3 de setembro de 2013

Sutilezas

Em Niterói, horário de verão de fevereiro de 2013, dois irmão, crianças e uniformizadas, andam juntas à babá. É horário de saída da escola. A rua está lotada de carros e ônibus também lotados. A calçada também está lotada. Os dois meninos, aparentando terem seis e cinco anos cada, se abraçam e caminham juntos e sorridentes. Eu não aguento apenas observar e falo: que lindo! A babá olha pra trás e sorri. Era realmente lindo!

***

Em Cachoeiro um senhor, vendedor de picolé, sentado em um banco de pedra da ponte municipal, observa, carrancudo, quem passa pela ponte às 15h no calor de 34 graus em pleno inverno. Noto que ele se esgueira para o lado fazendo uma careta mais carrancuda que antes. Ouço o barulho de um flato.

***

Crianças da rua jogam bola em uma tarde ensolarada. Cachoeiro é repleta de morros. A rua é mais um desses morros. Um artefato de madeira foi colocado na parte de baixo e outo no alto do morro. Será que alguém pensou que quem faz gol pra cima fica prejudicado?

***

O menino joga areia no carro estacionado em frente a sua casa. Ele nem sabe de quem é tal carro, mesmo assim joga areia em cima. Joga areia como se fosse água, limpa com as mãozinhas como faz o trabalhador do posto de gasolina. Como se a areia pudesse limpar o carro já bastante sujo. Uma moça chega da varanda de uma casa em frente e grita: Ei, mocinho, não pode fazer isso não! Era, certamente, a dona do carro. O menino, muito assustado, diz apenas, de sobressalto: eu sei. E corre para casa.

***


A moça esperava o namorado na porta do trabalho. Este estava em uma reunião. Avisara a ela que podia almoçar sem ele, pois iriar demorar. Não valia à pena esperar, mas ela queria a companhia dele feito cão sem dono. Passou cerca de duas horas sentada na escada da porta do escritório. Quando o moço sai, ela briga: Poxa, fulano, tô aqui faz duas horas te esperando pra gente almoçar! O restaurante já deve tá fechando. Ele apenas diz: mas não pedi que me esperasse. Ela faz um muxoxo, ele também. Os dois se abraçam e vão embora. 

14 de agosto de 2013

Das saudades

Estou hoje saudosa. De tudo. Das pessoas, dos abraços, das risadas. Dos amigos.

Desses todos que passaram por mim em algum lugar, em alguma época. Mas ninguém ficou.

E a culpa é minha. Toda minha. Estar sempre de mudança não é fácil para as relações de afeto. Começar do zero é sempre começar do zero.

Não tenho destino certo e nem pouso. E no momento, todos que conheço também são pessoas de transição. Vivemos todos em um momento de transição.

Ninguém quer ficar parado. Mas eu, porque é de mim que estou falando, quero que os que amo venha sempre comigo.


Porque sou saudosista. 

Tal pai, tal filho

Fazia calor em Niterói. Era verão de janeiro e o Gragoatá estava bastante abafado. Eu caminhava lentamente à UFF para um encontro com meu orientador. Usava meu vestido vermelho esvoaçante. Aquele que só posso usar em dias sem vento.

À minha frente estava um homem aparentando uns quarenta anos, mas devido ao seu estilo simples e de trabalhador, penso que se tratava de um jovem já curtido pelo sol e pelo tempo de trabalho pesado. Ele caminhava junto ao filho, um menino de, no máximo, uns cinco anos.

O homem, de bermuda e sem camisa, carregava esta dependurada sobre o ombro direito. O menino, que demorava em acompanhar o pai enquanto este reclamava essa demora, estava tirando, não sem dificuldade, sua camisa do Flamengo deixando à mostra a blusinha simples e infantil que estava por baixo. Ao conseguir tirar, dependurou a camisa do time no ombro direito para poder ficar igual ao pai. Eu, que até então estava alheia à cena, sorri sozinha e boba.


Eles deram as mãos e seguiram com o menino, cheio de orgulho e pose, se olhando e olhando o pai, aparentando gostar muito do que via. 

1 de agosto de 2013

A Fada

Quando criança sonhava receber cartas. Mas aos 11 anos de idade não se recebe muita correspondência. Em geral, não se recebe nenhuma.

Como passava a maior parte do dia em casa sozinha, sempre pegava as cartas que o carteiro, único em Jerônimo Monteiro, vinha trazer para minha mãe. Achava o máximo aquela quantidade de correspondência diária. Ainda não entendia que era tudo conta e/ou propaganda de alguma coisa. Carta mesmo, que é bom, quase não vinha. E quando vinha, eu sabia que isso era muito pessoal e eu não podia mexer. Já as contas, ou o que fosse, abria todas!

Adorava aquela sensação de rasgar os envelopes, um por um, como se todos fossem cartas para mim. Sem mencionar quando eu as jogava todas para o alto e pegava uma no ar fazendo a Xuxa. Para a minha tristeza, a graça ia embora rápido. Nada ali era para mim. E nada tinha algo bom para eu ler. Então continuava reclamando que nunca recebia uma carta sequer e, ainda assim, tinha que receber aquele montão de carta todo dia que não eram minhas.

Minha mãe, linda que só, penalizada com minha tristeza e na tentativa de me alegrar, começou a me escrever cartas com a ajuda e cumplicidade de uma amiga, a Ivani. As duas digitavam cartas nas quais escreviam “você é linda”, “você é uma menina muito especial” ou “quero ser sua amiga”, e assinavam sempre A FADA.

O tempo que levou para eu descobrir que eram as duas que faziam isso foi o suficiente para o tal carteiro achar fofo e depois passar a me gongar com a história. Por ser o único carteiro e de uma cidade tão pequena, ele sabia muito bem a quem as cartas se destinavam. E já havia gravado quem recebia cartas, semanalmente, de uma fada. Da felicidade eu passei rapidamente à vergonha e irritação pré-adolescente. Reclamei tanto, mas tanto, dizendo sempre que aquilo era uma bobeira, que queria receber carta de gente, e de gente que eu conhecesse, que minha mãe e Ivani contaram a farsa e nunca mais recebi cartas da Fada.

Com o tempo e com as amizades vindouras, passei a me corresponder com amigos e o fiz até a fixação da internet na vida de todos e falta de interesse alheio, atualmente minha também, em escrever longos textos.


E por todos os anos após as minhas primeiras cartas, o mesmo carteiro continuou a trabalhar por lá. Eu me mudei algumas vezes de endereço na mesma cidade, mas continuei sendo a menina da Fada. 

31 de julho de 2013

Agora

Tenho ouvido “Eu te amo” do Chico mais de 15 minutos para ver se consigo fazer algo parecido. Mas não estou triste como o personagem (e nem amando), só estou querendo saber o que fazer agora.

Agora que o sexo me deixou tímida. Tirou-me toda a intimidade conquistada. Tirou-me a liberdade de dizer qualquer coisa por nada, apenas para fazer rir.

Agora que minha memória insiste em te trazer de volta o tempo todo. Mesmo quando tento apagar qualquer boa lembrança que eu possa ter para não cair na armadilha do apego, já que o apego nunca me foi permitido.

Agora que toda vez imagino seus olhos nos meus, suas mãos nas minhas e seu corpo no meu.

Agora, agora mesmo, quando tudo o que gostaria era poder voltar no tempo e aproveitar cada segundo com a certeza da única vez.


Agora só resta esperar o tal tempo, que dizem ser remédio, passar. 

12 de junho de 2013

Eu não sei mais escrever

Eu não sei mais escrever uma crônica. Perdi meu lirismo, se é que o tive algum dia. Sempre que penso em escrever algo é para reclamar. Mas isso não é crônica. Então não escrevo e vou vendo meu blog cada vez mais às moscas. E eu tenho tanta coisa para falar... reclamar.

Por exemplo, em tempos de rede social tudo que se pensa é postado. Dos pensamentos mais inúteis aos mais revolucionários. E assim, todos os seus “amigos” adicionados sabem o que você pensa. É aí que começa o problema: não podemos pensar diferente um do outro. Até podemos, e pensamos. Mas quando ficamos sabendo o que cada um pensa, nos damos conta de que não conhecemos realmente os nossos amigos. A surpresa é inevitável, para o bem ou para o mal. Infelizmente, na maioria das vezes é para mal.

Como gostamos de casa cheia temos vários colegas e meros conhecidos adicionados ao lado de amigos de longa data e que realmente importam. Aprendi quando criança que não devo discordar de uma pessoa na casa dela, mesmo que ela seja racista, por exemplo. Já na minha casa e posso jogar pela janela se eu quiser! Mas na rede social funciona diferente, ao menos algumas pessoas pensam que funciona. Não me interessa a teoria de Mark Zuckerberg, mas o meu facebook é meu, e fim de papo! A casa é minha, faço dela o que eu bem entender. Você pode até me conhecer, mas não foi convidado para um café. Portanto, se eu posto algo que você, que me conheceu em 1997 e não me viu mais, discorda, por favor, engula, respire fundo e reclame de mim no seu facebook, na sua casa, ou na do caralho, como queira. Na minha não, obrigada!

É cansativo ter que pensar duas vezes antes de escrever algo sobre cotas raciais e sociais e pensar que tenho colegas, e até amigos, que discordam e que vão me atormentar dizendo que só concordo com “essas coisas estapafúrdias” porque sou ingênua, veja você?! Ou ainda ter que apagar comentário de mãe de amiga, evangélica fervorosa, que quis me bater com a bíblia após eu postar que sou a favor do aborto. Mas nada me deixa tão chocada ao saber que sou motivo de chacota dos amigos por eu não ter preconceitos e por lutar contra eles. Que mundo é esse, afinal?

E como se não bastasse apenas discordar, as pessoas ainda querem me convencer do meu equívoco. Pois estou equivocada sim em apoiar o movimento feminista, o movimento gay e o movimento negro. Estou equivocada em apoiar as minorias do país, incluindo a classe trabalhadora. Estou completamente errada em apoiar as manifestações país afora pela redução do aumento das passagens do transporte público. Sou uma tonta em apoiar o auxílio financeiro do governo federal à população de regiões que simplesmente não existe emprego. O fim mesmo, é eu achar que trabalhador tem que lutar por melhores condições de emprego e de salário, porque a miséria do salário mínimo está bom demais para quem não estudou, até porque a educação de base e superior é de fácil acesso para todos.


Isso não é uma crônica, é apenas reclamação. E a regra no meu blog é a mesma do facebook.  

26 de maio de 2013

Pensar o retorno

Essa semana meu amigo Danilo Barcelos escreveu algo em seu blog que me fez refletir, além me de dar um tema para escrever: o retorno não é dos piores.

Há uns anos, quando eu ainda morava em Vitória, só de pensar em um retorno para Cachoeiro, meu coração palpitava. Eu queria qualquer coisa, menos voltar pra casa. Meus amigos estavam em Vitória, eu tinha um mísero tralho em Vitória (e eu sabia que poderia trabalhar mais e ganhar mais em Cachoeiro, mas não queria), eu morava sem minha mãe por lá, e mesmo dividindo o apartamento com outras garotas eu tinha uma liberdade que na casa da minha mãe eu não teria. E Vitória era muito melhor que Cachoeiro: tinha todo o lazer e a infraestrutura que eu precisava e queria.

Mas após um pouco mais de um ano morando em Niterói, tão perto do Rio onde tem muito mais que Vitória a me oferecer, eu tenho pensado que em Cachoeiro eu serei mais feliz. A começar por aqui eu não ter amigos. E os poucos colegas que tenho, ou estão na pós como eu e, por isso mesmo, sem tempo, ou estão totalmente sem grana. Ou as duas coisas. Mais de 90% das pessoas que conheci aqui era melhor nunca tê-las visto, e isso não é, nem de longe, um exagero. É a pura realidade. Meus amigos de Vitória também são de Cachoeiro, então continuaria os vendo. Fora já perdi todo o romantismo de morar em república. E esse é o principal motivo para eu querer voltar pra casa.

Já tenho 28 anos, e ter que morar com pessoas nunca antes vista, construir laços, nem que seja para tolerar de baixo do mesmo teto, é desanimador com o passar do tempo. Com o valor exorbitante dos aluguéis nessa área do país, somente com doutorado e funcionária pública federal de nível superior eu poderia morar sozinha e pagar todas as minhas outras despesas, das necessárias às mais fúteis. E a casa da minha mãe em Cachoeiro é tão linda, tão nova, tão bem decorada... que não faz sentido eu morar mal em outro lugar e ganhar mal só pra dizer que não estou morando com ela e/ou em Cachoeiro, como tantos colegas fazem (e acham o máximo!).


Não, eu não penso em ficar lá de vez. Até porque não penso em ficar de vez em lugar algum. Também não penso em arrumar algumas escolas para dar aulas e ficar nessa para todo o sempre. Mas penso que não há lugar melhor no mundo que a minha casa para eu passar um período de transição. E como muitos colegas que saíram de casa aos 20 anos, ou menos, para estudar pensam, eu não acho que voltar pra casa agora seja uma derrota. Pelo contrário, acho uma vitória esse meu desapego geográfico. É preciso amadurecer muito para perceber que não é uma cidade que vai te fazer feliz. 

5 de maio de 2013

(Quase) nada lindo ou maravilhoso


Há uns anos meu sonho era morar no Rio. Fiz o vestibular da UERJ como se estivesse decidindo o meu fim ou o meu início. Dei um peso muito maior para essa universidade que para UFV ou UFES. Mas só passei para última. Só me mudei de cidade, o estado continuava o mesmo.

Até sair o resultado final da UFES eu chorei demais. Primeiro por não passar em nada, mais uma vez. Segundo porque me senti perdendo uma oportunidade única de morar no lugar onde as pessoas passam férias (carioca adora dizer isso). Tudo o que planejei tinha sido em vão. Mas logo esqueci, pois morar em Vitória foi maravilhoso. Nunca me preocupei em construir novos laços afetivos, já que quase todos os meus amigos de Cachoeiro moravam lá também. E os novos círculos, amigos de curso e de universidade, foram surgindo aos poucos, sem eu perceber.

Ainda assim, o Rio estava sempre presente. Ao menos uma vez no mês alguém vinha falar do Rio como se fosse o melhor lugar do mundo para se viver. Turista confunde muito a realidade. E essas conversas sobre a cidade aumentava muito a minha vontade de passear por lá. Já nem pensava mais em morar. Até que em 2009 fui a UFF, em Niterói, para o meu último ENEL. Mas nesse caso a cidade é um mundo a parte, não conheci Niterói como deveria e nem fiz muito turismo no Rio. Senti que foi pouco para me deslumbrar.  

Voltei ao Rio no mesmo ano para a Bienal do livro. Dessa vez fiquei hospedada em Copacabana, fui à Lapa uma noite, e caminhei pela orla da praia numa manhã de sol e praia lotada. Ali me senti deslumbrada. Tive vontade de morar em Copacabana, em nenhum outro lugar. Mas não era o suficiente. Não sentia ainda o que meus amigos sentiam.

O tempo passou e eu passei no mestrado da UFF. Já faz um ano que moro em Niterói, fui algumas noites à Lapa, passeio sempre que posso pelo centro do Rio – entre Cinelândia e Confeitaria Colombo, passando pelos museus –, passei tardes de sol em Santa Teresa e fui à praia em Ipanema. E continuo não me deslumbrando.

Ocorre o contrário: quando penso que posso começar a gostar de Niterói ou do Rio (é a mesma coisa, mas aqui tem mais classe-média-sofrista) chove e tudo alaga, as pessoas são facilmente/ridiculamente assaltadas, o valor do aluguel é surreal (e por melhor que seja o seu bairro, ele também vai alagar), a hipocrisia dos imobiliários é nojenta, o transito é infernal, o motorista do ônibus decide se vai parar ou não para você entrar, quando chove você vai ter que esperar no ponto por uma hora e quando o ônibus chegar você vai demorar mais uma hora pra fazer o trajeto que dura cinco minutos (porque tudo alaga!) e ainda tem mané para aplaudir o pôr do sol.

Cartão postal, além de nunca mostrar o lado B da cidade, mente ao mostrar o lado A. E assim o turista já chega deslumbrado. Chico Buarque, na música “Subúrbio”*, já tinha me dado o recado. Eu que não quis ouvir. 


*"Lá não tem claro-escuro
A luz é dura
A chapa é quente
Que futuro tem
Aquela gente toda
Perdido em ti
Eu ando em roda
É pau, é pedra
É fim de linha
É lenha, é fogo, é foda"

21 de março de 2013

Quem caga, caga!

O mundo é cheio de pessoas que vão nos foder. Todo mundo está apto a isso e não é muito difícil saber como são essas pessoas. É preciso ficar atento ao comportamento de cada um, mas nem sempre somos seres atentos.

Se uma pessoa nunca chega na hora marcada nos encontros, e/ou fura 30 minutos antes, tenha a certeza de que ela vai te foder. Na verdade essa pessoa já te fode a cada atraso. E quando fura com você 30 minutos antes da hora que ela mesma marcou de te encontrar para ir naquele jazz que você ama e estava querendo ir há semanas, mas não queria ir sozinha, e ela, porque é sua amiga e também gosta de jazz, disse que é C-L-A-R-O que vai com você - mas furou - o que ela está querendo dizer que acabou de enfiar no seu c* com areia. Porque está cagando pra você!

Se a pessoa nem tem muita intimidade com você, muito menos com a sua casa, e a primeira vez em sua residência já usa o banheiro para fazer o número 2, "breia" o vaso todo, usa a vassourinha e a "breia" todinha também, não limpa o vaso direito e nem a vassourinha e ainda suja o chão com a merda... Meu amigo, essa pessoa não só está cagando pra você, como vai continuar cagando se insistir.

Se uma outra pessoa, e agora estou falando de homem, usa o seu banheiro (gente, banheiro é coisa séria, território sagrado, principalmente banheiro de mulher), faz mais xixi no chão que dentro do vaso e não limpa, saiba que ele está deixando claro que não se importa nem um pouco se caga, ou deixa de cagar, em você.

E se o cara diz que gosta de você, mas te passa conjuntivite após uma noite linda de amor (?), não se iluda!
Está escancarado nos seus olhos (ou em apenas um deles) que esse cara caga pra você.

Esses são os detalhes das atitudes dos perfis que vão nos foder. Há outros também. Até citaria mais alguns, mas agora estou cansada de tantas cagadas alheias na cabeça da minha vida.