23 de julho de 2012

Eu não odeio Julio Cortázar


T. vive querendo se redimir por ter me feito sofrer. Seja com palavras que ele julga doces ou até mesmo com dinheiro para que eu compre um presentinho que me agrade. Eu até tento não interpretar isso de forma errada. Pois sei que ele não pensa muito e certamente não fez por mal. É o jeito errado dele de achar que arrasa, coitado.

Mas a maior desgraça que ele me causou nunca foi o sofrimento pelo fim de um namoro falido muito antes de começar.

Numa noite na casa de T. ele me explicava uma música como se eu precisasse da explicação. Na época eu era uma tola apaixonada e o deixava se sentir meu professor. Como já disse, eu era boba. E gostava de vê-lo feliz. Ele veio numa eloqüência poética traduzindo uma música cuja letra era em inglês. Eu não sei inglês, mas não precisava daquela tradução para entender a música. Mas deixei o cara se sentir poderosamente útil naquela noite. Sentados no chão da sala ele vinha traduzindo o primeiro verso, o segundo verso e o terceiro. Não foi além, porque não sabia a tradução do resto. Nisso, A., que morava com ele e outros dois amigos, disse: vai, T. termina de traduzir o resto, quero ver você conseguir! E nisso, E., outro morador da casa, disse: para com isso, A., deixa o cara, não precisa arrumar confusão.

Fiquei ali me sentindo uma idiota com tal situação. T. achava que eu era uma burra que precisava da tradução dos três primeiros versos para entender uma música. A. dizia a T. que ele era um burro e ainda tentava ensinar a outra burra. E E. apartava A. por achar que ela não precisava arrumar confusão por causa de dois burros.

Esse trio era tão insuportavelmente pedante que ao fim do namoro fiquei feliz por me livrar não só de T. mas dos outros dois também.

E sempre que iniciava a leitura de O Jogo da Amarelinha eu não conseguia concluir. Porque tinha, e ainda tenho, um ódio de Oliveira, Etienne, Ronald, Babs e Gregorovius, por se acharem tão intelectuais em seu pedantismo e menosprezarem a Maga por esta não ter a sabedoria deles e por vezes se sentir menor por isso.   

Essa foi a grande desgraça que T. me causou. Pois por anos eu culpei Julio Cortázar achando que eu não gostava dele. Mas a verdade é que não gosto de T., A. e E. 

11 de julho de 2012


O segredo é ser pessimista e pensar que tudo vai dar errado. Ou então parar de pensar.

Mas é possível deitar a cabeça no travesseiro durante a noite e não querer rememorar as boas lembranças para sentir o gostoso de novo?