3 de julho de 2011

Fala, menina, fala

Fala, menina, fala. Que seu silêncio dói-me o peito pior que um soco. Não diz nada e desvia o olhar para não dar bandeira. E de quê? Sai de perto para não ser tocada. E por quê?

Chora, menina, chora. Que segurar tanta dor sozinha não dá em nada. Chora, que é a melhor forma de se aliviar.

E por que me maltrata tanto? Por que não me diz o que sente? Pois saiba que também confundo meus sentimentos e também não sei o que quero. E isso também me dói.

Saiba ainda que tem mais pessoas no mundo gostando da mesma bebida que você e eu e querendo beber no mesmo cálice.

Também quero todo esse carinho que me oferecem. E não vejo erro em aceitá-lo.

Fala, menina, fala. Pois se me pedir, não faço!

1 de julho de 2011

Maria Chiozzi

“Vaga em república feminina”. E foi assim que ela me apareceu. Na verdade, foi uma colega de sua sala, brasileira, que me ligou dizendo que uma aluna de intercâmbio, italiana, cursando engenharia civil, procurava um lugar pra morar. Pensei: italiana deve ser melhor que americana, né?
No dia seguinte a sujeita, desleixadamente vestida, sorria pra mim do lado de fora de casa. E aqui me enchia de perguntas num portuliano tenso: quanto custa? Se pode fazer uma festa? Se pode trazer os amigos? Se pode fumar? Você costuma sair? Qual a sua idade? Qual seu signo? E dava uma festa a cada resposta minha.
No primeiro dia a comunicação foi um pouco difícil. Mais pra ela que pra mim. Digamos que eu fale um pouco rápido. Depois já nos entendíamos monossilabicamente. Basta dizer: mexicano, açaí, bombom de morango, churrasquinho, pracinha, big Mac, subir a montanha, rua da lama, samba e rock na Ufes.
A organização da casa deu lugar a fios de cabelo pelo chão, cinzas de cigarro e uma mesa da cozinha que não sei nem como explicar. E é fácil identificar, pelos papéis na sala, quando ela terá uma prova.
Trouxe-me perfumes importados, apresenta-me maquiagens e me dá chocolates de vários cantos da Europa. Foi ela quem me fez o primeiro guacamole que comi, sem saber que levava o abacate tão detestado por mim. E nunca mais parei de comer. Ela me engorda muito também, porque come demais e eu vou na mesma onda.
Além dos importados trouxe-me também amigos: muitos engenheiros, uns sambistas que cantam muito bem e batucam um pouco mal, mas se divertem muito, e uns dois abestadios.
Aqui em casa é festa todo dia, risadas a toda hora, muita amizade e cumplicidade. Quando está brava com algo não fala com ninguém. Isola-se apenas. E não adianta perguntar o que foi.
A bagunça da casa eu relevo. Arruma-se. E nem fico puta. Porque logo, antes que eu me dê conta, isso acaba. Vou olhar pra pia sempre limpa e me dar conta de que ela foi pra Itália.
E eu ficarei aqui, com uma casa arrumada, silenciosa e sem mais risadas.