Domingo, Setembro 27, 2009

[sem título]

Lavo as vasilhas em cima da pia que não fui eu quem sujou. Como são muitas, incomodo-me e lavo. Decido arrumar meu quarto, cheio que cabelos pelo chão, o que dá um enorme aspecto de sujeira. Passo pano na casa toda. Lavo o banheiro, por que não? Meu chuveiro está precisando de uma limpeza interna. Meu ventilador também. Limpo os dois minuciosamente. Com a limpeza do ventilador o quarto está novamente cheio de poeira, pelos e cabelos no chão, varro-o mais uma vez. Passo pano na casa. Lavo as janelas. A casa está molhada devido à água jogada nas janelas. Passo pano novamente. Exausta, vou tomar um banho. De pijamas na cama penso que preciso de sexo.

Sábado, Agosto 15, 2009

E foi assim...

Durante um ano a conversa fluía as mil maravilhas. Ter tanto assunto sobre coisa nenhuma era de fato fascinante. E nos dávamos muito bem nisso. Além de se parecer comigo em praticamente tudo, ele era lindo: um belo sorriso, cabelos castanhos, pele muito branca e barba de homem. E até isso, a idade dele, me chamou atenção. Cerca de 5 anos mais velho que eu já era o suficiente pra não pertencer àquele mundo de eternas indagações sobre o inexplicável que tanto me entedia.

A falta de Internet, nosso meio de comunicação e de conhecimento um do outro, balançou um pouco as estruturas e a conversa foi rareando. A falta de assunto fez-se clara e minha carência diminuía a cada nova tentativa de um relacionamento presencial. Passava a procurá-lo sempre que voltava a me sentir sozinha. Mas isso não durava muito tempo.

Até que um “namorando” apareceu no status do meu Orkut. O MSN perdeu a graça, e eu não enviava mais mensagens dizendo que sentia saudades, mesmo quando a sentia. Ele deve ter percebido. Todo mundo percebeu e veio comentar comigo. Ele não. Quando o “namorando” sumiu foi mais uma fase de perguntas a respeito do que aconteceu. Não sei se ele percebeu, ou se fez de sonso. Veio conversar comigo no MSN, e quando falei “gracinhas” pra ele, perguntou-me meio ponderado: “mas seu namorado não ficaria com ciúmes?”. Disse que não havia mais namorado. As conversas voltaram.

Não por muito tempo, é claro. Afinal, são anos de falta de assunto sem contato físico. Chega uma hora que perde a graça mesmo, admito. E foi exatamente nisso que depositei todas as minhas esperanças (falo assim porque minhas noites de solidão virtual nunca foram tão alegres depois que o “conheci”). Tinha certeza que para as conversas agradáveis voltarem era preciso nos conhecermos pessoalmente.

Depois de 3 anos de papo furado, enfim isso aconteceu. Cheguei a pensar que nem ia dar certo, que não teríamos tempo. Na verdade, tudo o que eu não queria era criar expectativas e ter o filho da mãe do acaso me atrapalhando... como sempre acontece.

Mas deu certo! Nos conhecemos, nos beijamos e transamos. Tudo o que eu queria, sem tirar nem por. E foi de fato muito bacana. Ele era exatamente como na Internet. Até o senso de humor, coisa que mais admiro num homem (até mais que uma bela barba). Um pouco sonso, é verdade. Devagar também. Talvez até sem atitude. Mas eu perdôo tudo isso. Preciso perdoar os defeitos do cara que eu criei. Totalmente idealizado por mim, e que eu talvez nem venha a conhecê-lo de verdade (se é que conhecemos alguém algum dia).

O chato disso tudo é que o papo no MSN continua brocha. Aí me dou conta de que várias outras mulheres, também muito bonitas, mandam recados no Orkut dele dizendo que ele é lindo. E foi exatamente assim que eu fiz. Isso me faz pensar que certamente fui apenas mais uma entre todas elas.

Ao menos o encontro foi bacana. Assim posso virar essa página tendo encerrado um capítulo tranqüilo.

Terça-feira, Julho 07, 2009

Reminiscências

Vamos lembrar a infância? Aquela fase alegre e sem maiores preocupações. Apenas passar de ano e não levar surra da mãe por ainda não estar em casa depois que ela chegou do trabalho.

Época em que eu era uma menina pequena, de pernas muito finas e raladas, cabelos ralos, grandes olhos que depois ganharam grandes lentes. E ser estranha assim, era normal na infância.

Ser pequena sempre teve suas vantagens. Afinal, na hora de penetrar quintal de vizinho adentro para roubar manga era eu quem saia na frente. Tanto para entrar, quanto para sair. Sem falar que ser magramente leve me ajudava a pular muros sem fazer barulho.

Jordana sempre foi minha amiga mais esperta. Sabia exatamente em quais quintais havia as melhores mangas. Em quais podíamos comer as mangas ali mesmo e em quais tínhamos que ser rápidas. Nos quintais mais tranqüilos, já pulávamos o muro, ou passávamos por baixo da cerca, com faca e saleiro na mão. Já teve gente que ao nos ver pulando o muro de volta pra casa avisou que levássemos um carrinho de supermercado na próxima. E numa triste vez, Jordana e Tatiana não correram tanto quanto eu, e levaram um puta esporro sozinhas. Ao me encontrarem, quem levou esporro fui eu, pela minha falta de companheirismo. Bem feito pra mim.

Também jogávamos bola com os meninos e sempre perdíamos. Brincávamos de salada-mista e sempre roubávamos. Brincávamos de subir o maior morro da cidade, o que não era nenhuma escalada, mas sim uma longa caminhada. Corríamos de bicicleta e nos divertíamos vendo quão distantes eram as roças que podíamos descobrir entrando numa rua e saindo logo na outra, isso era o que chamávamos de por trás da cidade. Dançávamos Spice Girls, e fingíamos namorar os irmãos Hanson’s, mas sempre brigávamos pelo Taylor.

E foi aí que descobrimos os primeiros sinais que mais tarde viria a ser amor. E as brincadeiras foram ficando pra trás. E com ela, a minha magreza e minha agilidade em pular muros e passar por baixo de cercas. E nem da manga verde com sal eu gosto mais.

Segunda-feira, Junho 08, 2009

A divina comédia humana

É verdade que o conheci na culminância da minha carência. Entreguei-me como me entregaria a qualquer outro naquele momento (que fique claro: a qualquer outro que aparecesse em minha vida de forma tão iluminada quanto você na culminância de minha carência). Meus amigos questionavam todo o enrolar da situação. Diziam que eu me entregava fácil demais, que não seria assim que te conquistaria. Sei apenas que não dava ouvidos a ninguém. Queria viver tudo com você e foda-se o amanhã. Afinal, é no amanhã que as coisas terminam, quando se sabe que nada é eterno. Queria estar colada junto a ti, de dia e de noite, fazendo tudo igual e sempre repetir, esquecendo a realidade da profundidade quando se trata de amor. E amamos em algum momento? Acho que vivemos todos os dias de uma atração intensa ou de uma paixão doce. Ao menos da minha parte. E mesmo sem saber qual é a sua, o que sente por mim e o que pensa de mim, estou disposta a ficar com você no sossego e no sufoco, acompanhar e gozar-te sempre, vivendo a realidade da divina comédia humana onde nada, absolutamente nada, é eterno. E aqueles amigos dizem hoje que perdi o senso, que paixão é coisa besta e que empaca os idiotas, e que sou muito inteligente pra tudo isso. Nem quero saber... enquanto eu puder insistir em você e esgotar até a última gota desse tesão, paixão, amor, seja lá o que for isso, eu canto.

Sexta-feira, Maio 22, 2009

Meu personagem

Estava na rodoviária de Vitória a espera do ônibus para Cachoeiro. Seria mais um fim de semana com a família. Sentei-me num dos bancos perto da plataforma 18. Observava todos que passavam, que sentavam e que se levantavam. Todos eram insignificantes para mim, até que um determinado rapaz me chamou a atenção. Ele era branco, barba e cabelos desarrumados e claros. Trajava uma calça de moletom azul, um casaco branco e sandália de couro nos pés.

O rapaz era, sem dúvida, muito bonito. Pelo estilo, pensei logo que fosse um mochileiro. Andava de um lado para o outro. Também observava as pessoas. Num certo momento me olhou fixamente, me encarou mesmo. Depois se virou e continuou andando de um lado para o outro. Por fim sumiu e passei a pensar em outras coisas. Meu ônibus chegou, entrei e horas depois eu já estava em Cachoeiro.

Não pensei mais no cara até que o vi novamente. Foi na rodoviária também. E mais uma vez eu estava lá esperando meu ônibus para Cachoeiro. Mas dessa vez fiquei de fato muitíssimo impressionada com o sujeito. E desde então, nunca mais o esqueci. Ele estava com a mesma roupa, no entanto ela estava muito, mas muito suja. Foi um tremendo choque! Ficou claro pra mim que ele morava na rua. Mas o sujeito tinha cara de rico. Postura de rico. Até a roupa que ele usava não era uma roupa miserável, estava muito suja, apenas isso.

Comecei a me questionar: o que ele estava fazendo na rua? Seria drogado e fora expulso de casa e sua grana acabou? Teria viajado e já estava muito longe de casa e não teria mais grana pra voltar? Mas isso nem é problema, pois mesmo que tivesse sido assaltado ele com certeza poderia entrar em contato com a família para dar um jeito de comprar a passagem de volta. Só tinha uma explicação: ele perdera a memória e não sabia mais como voltar pra casa.

Não parei mais de pensar nessa hipótese. E decidi que o rapaz da rodoviária seria meu personagem. O personagem do meu primeiro romance. Porque ele sim, é de fato digno de um romance.

No entanto, não escrevo mais que crônica. Tenho adiado o romance por meses. Já faz mais de um ano que o vi pela primeira vez e só agora fui capaz de escrever algo sobre ele.

Nunca mais o vi. Será que mudou de ponto e está num lugar que nunca freqüento? Será que recuperou a memória e voltou para casa? Será que era daqui mesmo e está de cabelo arrumado, barba feita e roupa limpa esbarrando por mim nas ruas e eu nem notei? Enfim, deixa os “serás” para o meu romance.

Terça-feira, Maio 05, 2009

La Noyée

A música na gaita é suave, apesar de angustiante. A gaita para mim é sempre lindamente angustiante. Afogada, então!

Penso no que escrever. A música atrapalha minha concentração. Gostaria de escrever o que não posso. O que aconteceu e já deveria ter esquecido. É como se assim tudo se apagasse da memória e ficasse apenas no papel e eu voltasse a ser pura. A menina pura que alguém um dia idealizou. Isso porque eu disse logo de cara: "eu não sou um doce". Mas sei que o inesperado sempre surpreende e confunde e faz sofrer.

A gaita angustiante afogada afoga minha angústia.

Eu queria escrever o que não fiz, para que tudo fosse concluído. Mania besta a minha de querer colocar um ponto final em tudo. Preciso entender que as relações tórridas são sempre quebradas, nunca finalizadas.

A maldita gaita me dizendo isso também. Diz que no calor o fogo queima e até machuca. Deixando apenas uma cicatriz de saudade. E que será esquecida. Pois a memória é traiçoeira, por melhor que ela seja.

A gaita afoga e renasce. O tempo todo. Tecnologia que repete. Basta apertar um botão.

Deixa a gaita tocar e me afogar. Quem sabe eu subo a serra. Aquela íngreme e extensa que todos nós temos que atravessar antes de morrer. Atravesso todo o estado que tanto detesto, fotografo todas as esquinas e todas as copas de árvores. Depois volto para casa. A gaita ainda estará tocando na mesma angústia afogada. É quando aperto o stop.

Quarta-feira, Abril 22, 2009

Kitty e Lu... ainda.

A questão é: o que é ser Kitty e o que é ser Lu? Kitty é a garota bem nascida da Mata da Praia. Lu é sua amiga pobre de Jardim Camburi. Kitty degusta com prazer e liberdade seus 22 anos sem conhecer o termo “obrigações”. Lu é mãe solteira e desesperada pra casar com um homem rico, acredita que só assim irá vencer na vida.


Esquecendo agora o óbvio, o que é ser Kitty e o que é ser Lu? Kitty, mesmo a fim do Mancha Negra, o rejeita. Por vaidade, por pirraça. Vai saber. Mas rejeita. E mesmo assim é ela quem ele quer. E vai atrás exatamente por saber o que quer, e batalha pra conseguir. Kitty, querendo o Mancha Negra, sabe que este está trabalhando na conquista e por isso continua não fazendo nada pra conseguir o que quer. Afinal, ela é Kitty Leme.


Lu é a que faz tudo para agradar e mesmo assim não agrada nada. Tenta não errar pra ver se dessa vez vai, e não vai nunca. Não para em nenhum emprego porque acredita que nada do que tenha trabalhado seja trabalho para ela. Mas ela sabe que tem que trabalhar. Ela sabe que tem que correr atrás pra conseguir o que quer, o que precisa.


Kitty não faz nada e mesmo assim consegue tudo. Enquanto o livro inteiro corre atrás de um trampo, Kitty curte sua última semana de férias, de sábado a sábado. Lu faz de tudo e nunca consegue nada.


Coitada. Até Reinaldo Santos Neves se esqueceu dela depois que Kitty passou a ser a gata da vez do Mancha Negra.


No universo Kitty de fato Lu é um xingamento. Mas no universo de todos nós, Lu é o que somos.